Esta série de trabalhos é composta por uma miniescultura de papel (de elementos de fauna ou flora) e uma microcasa equilibrando-se em uma cápsula de remédio, intitulada SÃO. O conceito do nome atribui à palavra SÃO o sentido de curado, de forma que o paciente em busca de cura interior seja convidado a ‘engolir’ diariamente essa infalível prescrição de medicar-se de natureza. Segundo Lygia Clark, o espectador precisa ser “jogado” dentro da obra, de forma que o trabalho artístico seja um campo de vivências ativado pelas interações entre o artista e o espectador. Nesse sentido, a cápsula foi incorporada ao trabalho como um recurso visual que conota o sentido de engolir (não mastigar, nem degustar, mas engolir definitivamente), já que o processo de cura não tolera uma experiência superficial e esporádica, exigindo profundidade e constância, assim como um medicamento de uso contínuo cujo tratamento não pode ser interrompido. Medicar-se de natureza por meio da contemplação consciente dos seres vivos que compõem a paisagem (seja uma mosca trivial ou uma exuberante ninféia azul) é uma pequena via, cientificamente comprovada, de um longo processo de cura interior que só poderá ser vivenciado pelo paciente-impaciente diante da própria natureza ferida, que precisa emergencialmente transcender.